O DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA DO BRASIL
Há 330 anos atrás, através de um cerco covarde de um grande contingente militar, Zumbi dos Palmares, líder da maior comunidade livre do Brasil colonial, foi capturado e morto por seus algozes portugueses. A mando de Caetano de Melo e Castro, o então governador-geral de Pernambuco, teve a sua cabeça decapitada e exposta em Recife, a capital da capitania, para satisfação e gozo dos brancos, senhores de engenho ávidos pela retomada da produção de açúcar no nível anterior à invasão dos holandeses.
Há 2 anos atrás, o Brasil republicano, que já tem 136 anos de idade, instituiu o Dia nacional da Consciência Negra como feriado nacional. Foi preciso 134 anos de república, cujo significado é coisa pública, ou seja, um bem que, em tese, pertence a todos nós, para que o nosso estado nacional, pelo menos na lei, sinalizasse que valoriza a liberdade e a dignidade do povo brasileiro, O Dia da Consciência Negra, no meu modo de ver, é a principal data do nosso calendário cívico, podendo, inclusive, ser entendido como o Dia da Consciência do Brasil. É um dia para lembrarmos que nossa liberdade e dignidade continuam ameaçadas pelos Caetano de Melo e Castro da atualidade.
Lá em 1695, o Caetano de Melo e Castro original, em comunicado a Dom Pedro II, então rei de Portugal, escrevia o seguinte: “Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público para satisfazer os ofendidos (os brancos escravocratas)....e atemorizar os negros que supersticiosamente consideram Zumbi um imortal”. Hoje, 330 anos depois, podemos responder a ele o seguinte: “Perdeu mané! Zumbi era, é e sempre será um imortal no Brasil”. É um imortal por força da Lei 9.315/1996, que o colocou no panteão dos heróis da pátria brasileira, mas, sobretudo, porque seu exemplo de vida, luta e resiliência se tornou parte da alma brasileira.
Uma alma que se alimenta do desejo de resistir e superar as injustiças e adversidades do cotidiano. Alma que resistiu na Cabanagem (1835-1840), em Canudos (1896-1897), na Revolta da Chibata (1910) e, aqui no Nordeste Paraense, em período histórico recente, na rebelião de Quintino Lira (1983-1985). É verdade que, em todos estes episódios, a resistência e o desejo de justiça foi vencido pela permanência de um modelo político que ainda mantém elementos do nosso período colonial, mas que, como é imortal, nunca morre e sempre se mostra vivo de diferentes formas e maneiras.
Ontem, participando de um evento para lembrar a importância histórica do feriado de hoje, assisti a performance teatral de um colega professor que terminou sua apresentação gritando a seguinte frase: NÃO SOU TEU NEGRO!. É importante aqui destacar que os povos originários, estes que até hoje são chamados erroneamente de “índios”, pois nunca viveram na Índia, também eram chamados de negros pelos brancos colonizadores. Para diferenciá-los dos negros de origem africana, eram chamados por eles de “negros da terra”.
Negro, portanto, na mente perversa dos colonizadores, era sinônimo de escravo. A esmagadora maioria do povo brasileiro é negra porque, em números, é formada pelos descendentes dos povos africanos que para cá vieram forçadamente, assim como dos povos originários que aqui já viviam há muitos milhares de anos antes da chegada dos europeus.
O exemplo de Zumbi e o 20 de novembro, portanto, para além do Dia Nacional da Consciência Negra, é também o Dia da Consciência do Brasil. É um dia para que, de diferentes maneiras e formas, possamos gritar coletivamente que não somos mais negros de ninguém, especialmente num momento histórico em que o Brasil e a América Latina estão sob a ameaça de um branquelo de postura fascista chamado Donald Trump.
Não somos mais negros de ninguém, somos negros que amam a liberdade e a dignidade humana acima de tudo. Viva o imortal Zumbi, Viva o 20 de novembro! Viva o Dia nacional da Consciência Negra e também do Brasil!


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